Realeza ou Realidade – Quem é Quem

Entre a Discrição e a Ostentação: Dois Modelos de Monarquia no Mundo Contemporâneo

Ao observar as monarquias contemporâneas, torna-se evidente que não existe um único modelo de exercício simbólico e institucional do poder. Pelo contrário, há uma divisão clara — quase antagônica — entre dois estilos: de um lado, as monarquias que constroem sua legitimidade pela discrição, pelo protocolo e pela continuidade histórica; de outro, aquelas que associam poder à demonstração visível de riqueza, autoridade e grandiosidade.

Na Europa, casas como a Casa Real da Suécia, a Casa Real da Espanha ou a Casa Real dos Países Baixos operam sob um princípio fundamental: a contenção. Nesses contextos, o monarca não governa diretamente, mas representa o Estado. Sua força não está na exibição de poder material, mas na capacidade de sustentar a estabilidade institucional ao longo do tempo. A estética é controlada, o comportamento é disciplinado e a imagem pública é cuidadosamente ajustada para não competir com a própria instituição que representam.

Esse modelo europeu baseia-se em uma lógica sofisticada: quanto menor a necessidade de afirmação pessoal, maior a percepção de legitimidade. A autoridade não se impõe — ela se reconhece. E é justamente essa sobriedade que garante às monarquias europeias uma permanência estável, mesmo em sociedades altamente democráticas e críticas.

Em contraste, ao voltarmos o olhar para determinadas monarquias do Oriente Médio e da Ásia, encontramos uma lógica distinta, onde o poder não apenas existe, mas se manifesta de forma visível. Na Casa de Saud, na Casa de Thani ou na Casa de Bolkiah, a riqueza e a grandiosidade fazem parte da própria narrativa de poder. Palácios monumentais, frotas de aeronaves, coleções de automóveis de valor incalculável e o uso extensivo de materiais nobres, como o ouro, não são meros excessos — são símbolos deliberados de autoridade, prosperidade e domínio.

O caso de Hassanal Bolkiah, em Brunei, é talvez o exemplo mais emblemático dessa lógica, onde a ostentação atinge níveis quase monumentais e se torna parte integrante da identidade do Estado. De forma semelhante, a Casa Real da Tailândia, sob o reinado de Maha Vajiralongkorn, também reflete uma concentração significativa de riqueza e poder, ainda que envolta em complexidades culturais e políticas próprias.

No entanto, é um equívoco simplificar essa diferença como mera oposição entre “discrição” e “excesso”. O que está em jogo são modelos distintos de legitimidade. Enquanto as monarquias europeias dependem da aceitação pública dentro de sistemas democráticos, as monarquias do Oriente frequentemente se sustentam em estruturas onde o poder político, econômico e simbólico se concentram na própria figura do soberano.

Nesse cenário, a Casa Real da Jordânia surge como um ponto de equilíbrio particularmente interessante. Sob a liderança do Abdullah II da Jordânia e da Rainha Rania da Jordânia, observa-se uma monarquia que combina sobriedade protocolar com forte atuação social, sem recorrer à ostentação como elemento central de sua imagem. Trata-se de um modelo híbrido, que compreende a importância da proximidade com a sociedade sem abrir mão da disciplina institucional.

No fim, a distinção entre esses modelos revela uma verdade essencial: a forma como o poder é apresentado varia conforme a cultura, a estrutura política e a história de cada país. Há monarquias que se afirmam pela contenção e outras pela exibição. Mas, em ambos os casos, o que está em jogo não é apenas estética — é a própria construção da autoridade.

E talvez seja justamente aí que reside a principal reflexão: enquanto alguns sistemas ainda associam poder àquilo que se mostra, outros já compreenderam que, no cenário contemporâneo, a verdadeira força institucional está naquilo que não precisa ser exibido.

About Mario Ameni

Mario Ameni, cerimonialista, consultor de eventos público-privado, com experiência em diversos setores do mercado. Atuando em Congressos, Seminários, Encontros Empresariais, com especial conhecimento em Recepção de Visitas Oficiais de Chefes de Estado estrangeiros.

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